Para que seja possível fazer-se uma ideia do que significava e dos números envolvidos em cada uma destas múltiplas actividades, permitam-me muito sucintamente que diga o seguinte:
Como Navio Hospital
Nesta faceta de Navio Hospital, talvez a mais importante de todas as desempenhadas ao longo de uma época de pesca, permitam-me que destaque duas acções que servirão para ilustrar a que extremos se chegava na ânsia de salvar vidas ... Decorria um dia normal de assistência nos bancos da Groenlândia e, quando estávamos a entregar isco a um dos navios, fomos subitamente alertados pelo N/m “Sernache” que necessitava urgente assistência para um pescador que tinha sofrido um acidente e estava em muito más condições. O N/m “Sernache” não se poderia deslocar ao nosso encontro por ter todos os botes na água. Imediatamente paramos a assistência que estávamos a prestar e rumámos para a posição do N/m “Sernache”.
Resumindo, o acidente poderá descrever-se assim: o N/m “Sernache” estava a fundear em águas muito profundas com um ferro mais leve, suspenso de um cabo de arame que, por sua vez, estava enrolado num sarilho de ferro. Ao cair em queda livre, a âncora esticou subitamente o arame o qual movimentou com muita rapidez o sarilho, fazendo saltar um braço deste que, por infelicidade, acertara com violência no temporal direito de um pescador. Fractura de crânio evidente, com derrame de massa encefálica, que vinha agarrada à sonda quando se pesquisava o ferimento. A operação era muito melindrosa dada a proximidade do local atingido dos nervos óptico e auditivo. O Navio teria de estar o mais estável possível e isso era impossível de conseguir no mar aberto do estreito de Davies. Para auxiliar os médicos o mais possível, dentro do meu campo de actuação e responsabilidade, conduzi o navio para largas milhas no interior do fjord de Amerdlock onde o mar estava calmo como um espelho e onde, também mandei parar todos os motores de bordo para acabar com todas as trepidações. A operação decorreu à luz de baterias durante cerca de seis horas. O objectivo foi totalmente atingido e o Homem foi salvo graças à competência dos Drs. Boffa Molinar e Abílio B. Canhão e, também, ao espírito de missão que nos acompanhava a todos e que, sem esforço aparente, nos levava aos maiores esforços e sacrifícios.
Permitam-me apenas um outro apontamento de um enorme leque que guardo para sempre. Trata-se do Junipero, um pescador da Nazaré que apareceu a bordo do N/m “Gil Eannes” aparentando um adiantado estado de Tp. Penso que é correcto que se diga nesta altura que eu sou apenas um Comandante da Marinha Mercante e não um médico. Peço pois a todos os médicos que lerem este apontamento a máxima benevolência para qualquer imprecisão. O Navio estava também na Groenlândia em plena faina de distribuir isco para a pesca. Os hospitais de terra não aceitavam doentes com aquela sintomatologia por medo de contágio e, por consequência, tínhamos de manter vivo o doente a bordo até à nossa chegada um porto da Terra Nova que distava cerca de dois mil quilómetros (mil e trezentas milhas marítimas para quem sabe de coisas naúticas). Para mantermos o Junipero vivo foi necessário consumirmos todo o oxigénio medicinal que havia a bordo, os hospitais de terra não nos valeram porque tinham as suas reservas muito baixas, e, a única solução de que pudemos dispôr para manter aquele vida, foi utilizar o oxigénio da casa da máquina ou seja o oxigénio impuro que, normalmente é usado nas soldaduras. E com ele vivo (depois de várias extremas unções que o Padre lhe deu) chegamos a St. John’s da Terra Nova onde foi internado num hospital especial para doenças contagiosas e onde recuperou o suficiente para mais tarde ser repatriado para Portugal. Não há muitos anos ainda o soube fazendo a sua vida normal lá para os lados da Nazaré. Neste caso, o mérito não pode ser dado na totalidade aos médicos ou a quem com eles colaborou pois, muito sinceramente, creio que Deus também foi um óptimo colaborador. Nesses tempos, até Deus fazia parte da nossa Equipa, e a prova disso, apesar de todas as competências é que, durante doze anos, nunca nenhum doente faleceu a bordo do Navio. Aliás, no caso de falecimento de alguém, num qualquer navio, era também o N/m “Gil Eannes” que ia ao encontro desse navio, recolhia o corpo do defunto, fazia a bordo o seu caixão, eram-lhe prestadas cerimónias a bordo, e depois a urna era depositada no talhão dos portugueses nos cemitérios de St. John’s, na Terra Nova, ou Hollsteinborg (porto da costa Oeste da Groenlândia), onde ainda hoje estão aqueles que pereceram e a quem a tripulação do N/m “Gil Eannes” cuidava das suas sepulturas, sempre que aportávamos a tais locais.
Também na morte, a acção humanitária do N/m “Gil Eannes” não foi nunca desprezada.
Quantos familiares das comunidades de Homens do Mar de Ílhavo, Aveiro, Lisboa, Porto, Setúbal, Nazaré, Peniche, Ericeira, Matosinhos, Portimão, São Miguel (Açores) e outras localidades, por não terem junto a si os seus mortos, os não choram, ainda, sabendo-os longe?
Como Navio Capitania
Desempenharam as funções de Capitães do Porto a bordo do N/m “Gil Eannes”, durante a vigência do meu Comando, os Senhores Capitão Mar e Guerra, Tavares de Almeida, infelizmente já falecido, Capitão Tenente Limpo Toscano, Capitão de Fragata, hoje um distinto Almirante, Mário Simões Teles, e, por último o Capitão Tenente António dos Santos Gaspar. Qualquer um destes distintos Oficiais da nossa Armada, excepto o saudoso Comandante Tavares de Almeida, poderá testemunhar o que de magnífico se teria passado durante o exercício da sua Capitania.
Como Navio Correio
No Mar Alto, as funções de recepção
e distribuição de encomendas e correio, eram totalmente desempenhadas
pelo N/m “Gil Eannes”. Assim, eram manuseadas a bordo cerca de um milhar
de encomendas recebidas em Lisboa para os navios e suas tripulações
e recebidas e/ou distribuídas cerca de setenta a oitenta mil cartas
trocadas entre os pescadores e os seus familiares. Por vezes juntavam-se
a bordo, para selar, cerca de três a quatro mil cartas e, não
é fácil imaginar quantos voluntários eram necessários
para ajudar o tripulante encarregado desse serviço.
Ainda que possa haver quem pense que este serviço de correio não teria grandes dificuldades, independentemente dos pescadores com o mesmo nome e em navios diferentes, repara-se neste envelope recebido no N/m “Gil Eannes” em plenos bancos da Groenlândia:
Ex.mo Senhor
Navio Bilas
Ferreira Grave
Terra dos Cronos - Onde se vai meter o isco
Isto “traduzido” significava:
Ex.mo Senhor
N/m Allan Villiers
Faeringhehavn
A terra dos cronos era a terra onde a moeda era o “crown” dinamarquês
e, Faeringherhavn era, de facto, a terra onde alguns veleiros se abasteciam
de isco.
Como Navio Abastecedor
Todos os serviços de abastecimento aos
navios da frota eram efectuados no Mar sob as mais variadas condições
de tempo e mar e, também, de temperatura ambiente. Este último
factor, aparentemente de pouca importância, assume uma outra dimensão
quando sabemos que a meio do Verão e, num dia sem nuvens e com um
bonito Sol, a temperatura do ar poucas vezes atinge os seis graus positivos.
Além de que a temperatura no interior dos porões frigoríficos
onde se armazenava o isco para distribuir pelos navios de pesca era normalmente
de vinte graus negativos. Durante a campanha, distribuiam-se pelos navios
da frota, cerca de 1800 a 2200 toneladas de isco congelado recebidas pelo
N/m “Gil Eannes”, para que os navios de pesca não perdessem tempo,
nos portos de North Sydney na Nova Scotia e Faeringherhavn, na Groenlândia.
Também se forneciam à frota, por campanha, cerca de 400 toneladas
de água potável e aproximadamente 250 toneladas de combustível.
Recebiam-se em terra e entregavam-se aos navios nos seus locais de pesca
cerca de noventa toneladas de mantimentos de toda a espécie e largas
centenas de redes de e malhas recebidas na Terra Nova. Aos arrastões,
que também eram assistidos diversas vezes por época, era
distribuído todo o material de pesca recebido em Lisboa desde portas
de arrasto de cerca de mil quilos cada, até redes e esferas de arraçal
recebidas quer em Lisboa quer na Terra Nova. Desde equipamentos a farmácias,
desde reparações eléctricas até reparações
electrónicas de tudo se fazia para facilitar a vida aos nossos pescadores.
Como Navio Rebocador
Tanto alguns navios de frota à linha, como alguns
arrastões beneficiaram do facto do N/m “Gil Eannes” estar preparado
para ser utilizado como navio rebocador, para resolução de
alguns dos seus mais graves problemas. As mais de três mil milhas
com navios a reboque, representaram, sem dúvida, um grande contributo
a favor da economia, não só dos Armadores, mas também
Nacional. A título de exemplo, e sem de forma alguma esgotar o assunto,
posso mencionar que, gozaram deste tipo de assistência - reboque
- os seguintes navios:
Lugre Coimbra - dos bancos da Terra Nova para St. John's com
avaria no motor principal.
Arrastão Invicta - dos bancos da costa do Labrador para
St. John's com avaria numa pá do hélice reversível.
Arrastão Lutador - dos bancos do Sul da Groenlândia
para o porto de Hollsteinborg, no Norte, com uma rede de pesca a imobilizar
o motor e o leme.
Lugre Gazela I - de Noroeste dos Açores para o porto
de St. John's, no início da sua campanha de pesca, com avaria no
motor propulsor;
N/m Celeste Maria - do Norte dos Açores para o porto
de St. John's no fim da sua campanha de pesca, com avaria irreparável
no mar no motor propulsor;
Outras assistências do mesmo tipo de reboque se cumpriram, como por exemplo ao arrastão Álvaro Martins Homem, ao N/m “Inácio Cunha” por exemplo mas, para não tornar demasiadamente extenso este apontamento escuso-me de as enumerar. Além de que, a precisa memória dos factos também já vai falhando.
Como Navio Quebra Gelos
Neste campo além da assistência prestada
a arrastões dentro de campos de gelo há a destacar principalmente
a assistência prestada ao N/m “Rio Antuã” que lhe permitiu,
com água aberta na proa, demandar o porto de St. John's, navegando
durante catorze horas, através de um compacto campo de gelo, aproveitando
a esteira aberta pelo N/m “Gil Eannes”, que navegava cerca de umas poucas
centenas de metros na sua proa. Esta navegação praticamente
livre de obstáculos para o Rio Antuã, foi extraordinariamente
difícil e penosa para o N/m “Gil Eannes” que, muitas vezes, apenas
com as suas duas máquinas a toda a força a vante conseguia
romper a muralha de gelo à sua frente.
O exemplo anterior creio ser bastante elucidativo do que o N/m “Gil Eannes” estava pronto a fazer, em socorro e para salvação de, todos aqueles que, de uma forma ou de outra, sentiam em perigo as suas vidas.